Bolsonaro abandona e engana os brasileiros: ameaça à democracia

Foto: Divulgação/Reprodução
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Por Patrick Guimarães

O Brasil vive um dos piores períodos de sua história. A população dividida em grupos ideológicos, cada um com a sua verdade, e conceitos básicos como respeito e coletividade se perdendo a cada dia. Este distanciamento também se estende às instituições democráticas da república, gerando caos nas ruas e nos palácios governamentais, parlamentares e judiciários. Atravessamos a confusão de novos tempos, de mudanças profundas sociais. Travamos guerras tecnológicas, biológicas e talvez a mais perigosa, a ideológica. Apesar de todas terminarem com “lógica”, nenhuma faz sentido lógico e só atrapalham o processo democrático.

Atualmente vivenciamos uma quase trégua na crise entre os poderes brasileiros. Contudo, este cenário não deve ser encarado como uma simples briga política. Junto às fortes raízes fisiológicas, também estão as ideológicas. Na história recente do Brasil, não se viu um nível político tão baixo entre os três poderes da república, pilares da Constituição e da Democracia.

Nos últimos tempos, os brasileiros têm assistido, exaustivamente, um verdadeiro circo dos horrores na mídia Brasil afora, com ataques verbais frequentes acentuados por palavras de baixo calão, desferidas em sua totalidade pelo presidente Jair Bolsonaro contra autoridades, principalmente do Judiciário. Caso seja reeleito, a tal trégua termina no dia seguinte ao fim das eleições. No momento, é conveniente que Bolsonaro se mostre menos pior do que realmente é.

Em um evento em Santa Catarina, Bolsonaro chegou a chamar o então presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Luís Roberto Barroso, de “filho da puta”.

Pouco depois, durante cumprimento de agenda em São Paulo, Barroso não se rebaixou ao mesmo nível e declarou:

“Sou um ator institucional, não político. Não tenho interesse em polêmicas pessoais. A conquista e a preservação da democracia foram as grandes causas da minha geração. E é a isso que eu dedico a minha vida pública. Não paro para bater boca, não me distraio com miudezas, o meu universo vai bem além do cercadinho”.

Outro ministro também veementemente atacado pelo presidente e seus seguidores é Alexandre de Moraes, principalmente após ter incluído o presidente no inquérito que apura fake news e ataques contra a Corte. Bolsonaro respondeu que “sua hora vai chegar”. Mas o que isso quer dizer?

Em uma visão mais ampla, o que se pode ver através dos ataques do presidente às instituições democráticas são estratégias para o enfraquecimento do sistema democrático, tendo como resultado o caos social e econômico pelo qual o Brasil atravessa.

O Parlamento, dividido em partes que ficam em cima do muro, ou apoiam o governo, ou fazem oposição, não tem conseguido impedir o caminho de incertezas que vem se formando adiante.

Enquanto cada um defende a sua ideologia, com suas regalias bancadas pela população brasileira, o país se degrada em economia, segurança pública, saúde, geração de emprego e renda, em educação e cultura. Durante três anos e meio do governo , Bolsonaro manteve os brasileiros a “pão e água”, o que muitos nem isso têm. Observamos o enfraquecimento da indústria, a desvalorização do Real, os preços nas alturas, desemprego, endividamento das famílias, falta de credibilidade perante as maiores economias do mundo. Em resumo: recessão.

Entretanto, faltando seis meses para o fim do seu mandato na presidência da república, Bolsonaro decidiu reduzir os preços dos combustíveis e aumentar o auxílio Brasil. Cabe destacar que tais medidas só valem até dezembro deste ano. Desta forma, promoveu algum fôlego aos brasileiros, sim, mas principalmente a si próprio., já que agrada, mesmo que temporariamente, a quem necessita, e aos seus seguidores das classes mais altas, que não necessitam de amparo do Estado.

Em contrapartida, Bolsonaro realizou cortes orçamentários em setores básicos e fundamentais para o povo brasileiro, tais como:

  • Redução de 45% dos recursos para a prevenção e combate ao câncer;
  • Redução de 59% das verbas do programa Farmácia Popular, dificultando o acesso a medicamentos voltados principalmente às doenças crônicas;
  • Vetou R$ 3 bilhões da cultura;
  • Praticamente eliminou os recursos para a infraestrutura das escolas, retirando 97% do orçamento;
  • Também eliminou 90% do orçamento do programa Casa Verde Amarela (antigo Minha Casa Minha Vida, criado por Lula), paralisando 140 mil obras. Ele e seus familiares não precisam, quando compram um imóvel, compram à vista ;
  • Apesar de tentar se colocar melhor entre as mulheres, cortou 99% dos recursos do orçamento 2023 para o combate à violência contra elas;
  • Comendo picanha de R$ 2 mil o quilo, gastando milhões com leite condensado e pondo sigilo em suas gastanças com dinheiro público, cortou 97% da verba destinada à alimentação;
  • Reduziu em 96% os investimentos da Polícia Federal para o combate e a prevenção ao tráfico de drogas e crime organizado;
  • Cortou R$ 1 bilhão do orçamento do INSS;
  • Tirou 29% dos investimentos em saúde, ou seja, praticamente 1/3 do que era gasto, e reduziu recursos do Programa Nacional de Vacinação. Segundo o epidemiologista Pedro Hallal, na Universidade Federal de Pelotas (RS), “o Brasil poderia ter salvado 400 mil vidas perdidas para a covid-19, se tivesse implementado medidas de distanciamento social mais rígidas e lançado o programa de imunização mais cedo”. Bolsonaro omite até hoje ter negado 21 propostas de laboratórios para a compra de vacinas no primeiro ano da pandemia (2020);
  • Cortou 95% da verba do Sistema Único de Assistência Social (Suas), órgão que cuida da gestão do Cadastro Único (CadÚnico). Centenas de unidades devem ser fechadas. R$ 405: é o valor previsto para o Auxílio Brasil no ano que vem. Para manter os R$ 600, pretende vender estatais e demais patrimônios dos brasileiros;
  • Cortou R$ 3,2 bilhões nas contas de ministérios do Trabalho e Previdência, Educação, Desenvolvimento Regional e Cidadania;
  • Instituiu o orçamento secreto, ao qual os brasileiros não podem ter acesso aos gastos;
  • Determinou sigilo de 100 anos sobre si próprio e seus parentes.;

Infelizmente, o desmonte promovido por Bolsonaro não para por aí!

Estratégia ou coincidência?

Nos últimos 100 anos, acompanhamos o surgimento de governos autoritários e ditatoriais em todo mundo. Hitler na Alemanha, Saddam Hussein no Iraque, Stalin na extinta União Soviética, Muammar Gaddafi na Líbia, Idi Amin Dada em Uganda, entre outros. Além dos modos brutais de governar, estas figuras que marcaram a história da humanidade também têm em comum o fato de chegarem ao poder totalitário por meio de sistemas democráticos, aos quais se voltaram contra e tomaram o comando de seus países por meio de golpes com apoio das forças militares. E todos se utilizaram de um manual, com estratégias semelhantes.

Após tomar o poder, desqualificar e acabar com seus rivais, enfraquecer as instituições democráticas, tornar o povo submisso, controlar a verdade e a circulação da informação, vem a fase de reinventar seu país.

Se colocando como o único apto a transformar o país, quem possui mentalidade autoritária cria uma utopia, na qual geralmente acredita mesmo. Nas entrelinhas de todo golpe, os “salvadores da pátria” buscam, sobretudo, promover o caos em suas democracias.

Através da crise institucional, atualmente, estamos assistindo os brasileiros lutando contra os próprios brasileiros, seja entre os poderes constitucionais, seja nas ruas, entre os cidadãos comuns, mas não menos importantes. Divergências à parte, todos fazem parte de uma única nação e tudo se reflete entre todos, do Norte ao Sul.

Tomara que qualquer semelhança com o que vem ocorrendo no Brasil seja mera coincidência. Será?    

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