Comunidade de Perus é excluída de audiência sobre incinerador de lixo
No início desta semana, a população do bairro Perus, em São Paulo, foi impedida de participar de uma audiência pública sobre a construção de um incinerador de lixo. A reunião, organizada pela prefeitura e pelo governo estadual, teve ausência marcante dos moradores locais.
O projeto, denominado Unidade de Recuperação de Energia (URE) Bandeirantes, é desenvolvido pela empresa Logística Ambiental São Paulo S.A. (Loga) e está sendo examinado pela Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb). Durante a audiência no CEU Perus, localizada em Vila Fanton, ônibus transportaram pessoas que não eram reconhecidas como parte da comunidade. Estas pessoas chegaram antes no local, inscreveram-se para falar e ocupavam o espaço dos moradores locais, dificultando a manifestação de críticas e questionamentos previstos.
Uma das pessoas presentes na audiência admitiu receber dinheiro para comparecer como se fosse habitante do bairro. Relatou também que orientações foram dadas por um responsável sobre como reagir durante o encontro.
Com o teatro do CEU cheio, cerca de 500 moradores foram impedidos de participar e ficaram do lado de fora, onde a chuva e a presença de agentes da Guarda Civil Metropolitana com equipamentos de contenção aumentaram o desconforto.
Eventualmente, três representantes dos guarani mbya conseguiram entrar, devido à ligação histórica do distrito do Jaraguá com Perus. Lideranças comunitárias criticaram a condução da audiência, considerando planejar uma consulta organizada pela própria comunidade, além de uma audiência indígena.
De acordo com o engenheiro químico Mario Bortoto, o incinerador é uma tecnologia ultrapassada e pode elevar problemas de saúde na região, que já sofre com falta de infraestrutura e serviços. Ele destaca deficiências no atendimento médico e habitacional, comuns em áreas periféricas de São Paulo.
Thais Santos, química e consultora, reforçou a importância de garantir espaço de diálogo para a comunidade. Ela descreveu o evento como manipulativo e ressaltou que a audiência ocorreu em horário incompatível com a rotina de muitos trabalhadores.
Como alternativa ao projeto do incinerador, a comunidade propõe a criação de um Território de Interesse Cultural e Paisagístico, valorizando o espaço por meio de turismo sustentável.
A região de Perus, conhecida por seu passado histórico envolvendo a ditadura militar e problemas sociais diversos, está sob pressão para aceitar iniciativas similares ao incinerador. No entanto, a população continua a resistir, apontando preocupações ambientais e saúde pública.
A Cetesb informou que os pontos levantados no encontro serão considerados na análise de licenciamento ambiental. A Loga e a prefeitura de São Paulo esclareceram que a estrutura proposta é moderna e segura, com o objetivo de diminuir resíduos em aterros, gerar energia e criar empregos, afirmando que a presença na audiência foi espontânea e dentro das normas de segurança.
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