Por Patrick Guimarães
Apesar do céu nublado, o sol surgiu timidamente na manhã dessa terça-feira (2/11), Dia de Finados, trazendo um pouco de esperança para os moradores de São Gonçalo. Ontem (1º/11), mais uma vez a cidade sucumbiu à forte e constante chuva. Sempre que chove muito é assim. Diversos bairros da cidade registraram alagamentos e não somente as periferias, onde, historicamente, os governos municipais não investem em obras necessárias de infraestrutura e a população sempre acaba pagando pelo descaso.
Enquanto o governo municipal comemora o recapeamento de vias da cidade e empurra “goela abaixo” como se estivesse resolvendo todos os problemas da população, dezenas de famílias acordaram nesta terça-feira (2/11) desabrigadas e desalojadas de suas residências. A maioria de bairros como Jardim Catarina, Salgueiro, Fazenda dos Mineiros, entre muitos outros.
Acumulando uma série de problemas estruturais, São Gonçalo continua crescendo desordenadamente e sem planejamento. Alagamentos e deslizamentos de terra são constantes. Os gonçalenses também são expostos a sérios problemas de saúde, já que, em situações como a de ontem, o esgoto das residências se mistura às águas pluviais.
Nesta terça-feira (2/11), além de chorarem pelos seus entes queridos já falecidos, dezenas de famílias do Jardim Catarina também tiveram a dor de perder tudo dentro de casa somadas às lembranças dos que se foram no passado. No bairro, um bote do Corpo de Bombeiros chegou a virar durante um resgate, tamanha a dificuldade desse tipo de operação. A Cruz Vermelha, como sempre, faz a diferença nessas horas ao apoiar os bombeiros na difícil tarefa de salvar e acolher as pessoas.
Mesmo com o dinheiro da venda da Cedae, em parte já repassado pelo governo do estado à prefeitura, a máquina pública não apresenta projetos de reestruturação da cidade. A propósito, apresentar ideias é ação corriqueira entre os políticos, o difícil é executar de fato. Os mais prejudicados, em sua maioria, são os lugares mais pobres e abandonados da cidade.
Até o asfalto recém-colocados pela prefeitura em vias principais da cidade já começou a estourar. Um desses exemplos fica na Avenida Jornalista Roberto Marinho, na altura do bairro Rocha. Apesar de novo, não aguentou nem até a próxima eleição. E os motoristas continuam amargando seus prejuízos, com estragos na suspensão, pneus, rodas, etc. Ué, mas São Gonçalo não está mudando para melhor? É o que diz o atual governo!
A cidade sempre foi maquiada quando se aproximam as disputas eleitorais e não está sendo diferente. Mas a maquiagem acaba “borrando” quando a população precisa de infraestrutura, como nos casos das chuvas fortes.
No bairro Boa Vista, um dos pontos asfaltados recentemente, um senhor aposentado foi taxativo. “A maquiagem que a prefeitura está fazendo na cidade não resolve os problemas estruturais. São Gonçalo continua parado no tempo”, enfatizou Armando da Silva, de 68 anos.
Ontem (1º/11), os vereadores Romário Régis e Professor Josemar tomaram a iniciativa de ir às ruas para ver de perto a real situação dos alagamentos na cidade. Na ocasião, eles gravaram uma live juntos no bairro Neves. Ao fundo a via principal, Rua Oliveira Botelho, próxima à 73ª DP.
“Fizemos diversas solicitações e emendas à Lei Orçamentária do município, que incluem intervenções estruturais, mas todas foram vetadas. Propomos que entrassem recursos no orçamento de obras da prefeitura, o que foi ignorado pelo prefeito. E agora tem dinheiro para fazer (refere-se ao repasse pela venda da Cedae), esse é o momento de resolver alguns problemas sérios na infraestrutura da cidade”, reclama o vereador Professor Josemar.
“Temos sempre tocado nesse ponto sobre os alagamentos na cidade. A situação é crítica na maioria dos bairros, só piora e nada é feito para melhorar. No início desse ano, impulsionada por nós, uma das primeiras audiências realizadas na Câmara de Vereadores tratou sobre enchentes, alagamentos e deslizamentos. Nela, cobramos um plano estratégico sobre o tema e sobre o aluguel social. Infelizmente, a prefeitura vetou todas as nossas propostas. Não adianta colocar asfalto sem saneamento, drenagem, estudo do solo”, diz Romário.
Durante a transmissão, um homem parou o carro e puxou assunto com os vereadores. Ignorando o enorme alagamento à sua frente e demonstrando profundo desconhecimento sobre a máquina pública, começou a elogiar o governo municipal e a bater boca com os parlamentares.
Em tempo real, eis que Romário descobriu, pelas redes sociais, que ele é diretor do 4º DCO (Departamento de Construção e Obras), que fica em Neves, e é o órgão responsável pela prevenção e manutenção contra enchentes no bairro. Constrangido, o funcionário foi embora.
Assista o vídeo em:
Trampolim eleitoral
Em todos os bairros, incluindo os corredores principais, os prejuízos são constantes, portanto, o que melhorou na cidade nos últimos anos? Entram e saem prefeitos, mas nada muda além do quadro político. Com a segunda maior concentração de votos no estado, o foco acaba sendo, sempre, eleger seus parentes em vagas nas câmaras estadual e federal. A maioria enriquece e some da cidade depois que alcança seus objetivos.
O assistencialismo sempre foi a mola de impulsão dos políticos na cidade. Todos conhecem os problemas, mas só aparecem com ações paliativas depois que os problemas já aconteceram. Também, pudera, a maioria dos 27 vereadores da casa vive “refém” do governo municipal e se utiliza de discursos evasivos em casos como o de ontem.
Quando se aproximam as eleições, causa espanto o fato de todos desejarem se apossar da cidade como seu território eleitoral. “Eu sou de São Gonçalo e amo essa cidade. Precisamos melhorar a vida dos moradores”, costumam dizer. Mas a maioria sequer conhece a cidade e só a prioriza em sua agenda por ser o segundo maior colégio eleitoral do estado, ficando atrás somente do município do Rio de Janeiro.
Após muita cobrança dos veículos de comunicação, somente às 12h05 desta terça-feira (2/11) a Prefeitura de São Gonçalo emitiu um balanço sobre os estragos e qual assistência está prestando à população.
De acordo com a Subsecretaria de Defesa Civil de São Gonçalo, os bairros mais afetados pela chuva foram Jardim Catarina e Itaúna (leia-se todos os bairros que compõem o Complexo do Salgueiro).
Segundo o órgão municipal, quatro ocorrências foram registradas no município durante o temporal de ontem (1º/11). Por volta das 10h30, uma árvore caiu sobre uma casa no bairro de Itaúna. Duas horas mais tarde, outra árvore caiu.
No bairro Jardim Catarina, uma casa chegou a desabar e uma mulher de 60 anos teve que ser levada para o Hospital Dr. Luiz Palmier (HLP), no Centro. A nota ressalta não haver vítimas fatais em decorrência das dezenas, talvez centenas, de alagamentos e rios que transbordaram na cidade.
“Colocar capinha fina de asfalto e ficar remendando até as eleições é fácil, difícil e solucionar de verdade os problemas que impedem o crescimento da cidade e, em muitos casos, tiram a dignidade e os direitos básicos dos contribuintes”, indigna-se o engenheiro Jorge Soares Almeida, de 52 anos morador do Rocha.